A voz de Lula no “decadente” G7 e o papel do Cone-Sul na Ordem Mundial

O cenário internacional já não comporta mais o figurino do século passado. A recente Cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, deixou claro que o outrora todo-poderoso comitê gestor do capitalismo global vive uma transição inevitável. Aquela que já foi a “Praça Alta Global” — o topo da pirâmide onde meia dúzia de nações ocidentais ditava, sem interrupções, os rumos políticos e econômicos do planeta — hoje assemelha-se muito mais a um “velho clube de amigos velhos”.

Essa transformação, contudo, precisa ser lida sem as lentes do alarmismo ingênuo. Não se trata de uma ruína catastrófica, mas sim de uma adaptação forçada aos novos tempos. O G7 perdeu o monopólio da relevância porque o Sul Global emergiu de forma definitiva. Em termos de PIB paridade de poder de compra, o motor do crescimento mundial mudou de endereço. Diante de um cenário em que a Casa Branca empunha a cartilha do protecionismo tarifário e dita as regras de segurança aos seus aliados transatlânticos, o simples fato de as potências europeias conseguirem manter o G7 operando sem que o clube imploda já pode ser considerado uma vitória diplomática considerável. É natural, portanto, que o grupo assuma o seu peso real: um bloco informal de potências ocidentais que precisa, queira ou não, negociar com o resto do mundo.

É justamente aí que reside o pragmatismo da presença do Brasil em Évian. Compreender que o G7 já não é o eixo único da Terra não significa ignorá-lo; significa saber exatamente como usá-lo. Pelo seu peso econômico, projeção diplomática, herança civilizacional e posição geográfica estratégica — ancorado tanto no Hemisfério Sul quanto no Ocidente —, o Brasil não pode se dar ao luxo de escolher trincheiras. Condiz com o interesse nacional brasileiro transitar com a mesma desenvoltura pelo “núcleo duro” ocidental e pelas mesas de articulação dos BRICS, dialogando simultaneamente com Washington, Pequim, Moscou, Teerã e as capitais africanas.

A atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro acertou o alvo ao explorar essa exata avenida. Ao se posicionar como a voz da multilateralidade e do desenvolvimento equitativo, Lula constrangeu o otimismo estrito do capital privado ocidental com as urgências estruturais do Sul Global. O presidente demarcou a soberania brasileira ao recusar alinhamentos automáticos em termos que interessavam puramente à geopolítica de segurança do G7 e barrou a abordagem puramente extrativista que o bloco tentou desenhar para os minerais críticos. Afinal, ver o Brasil apenas como um imenso depósito de lítio e nióbio para abastecer a transição tecnológica do hemisfério norte é de um lirismo colonial que já não cabe na mesa.

Esse movimento ganha ainda mais tração quando conectado à agenda comercial. Em meio às complexas tratativas entre o Mercosul e a União Europeia, a diplomacia presidencial colheu frutos práticos nos bastidores de Évian, consolidando os avanços do acordo de livre comércio com o bloco da EFTA (liderado pela Suíça). Trata-se de uma demonstração clara de que a relevância global do Brasil está diretamente vinculada à solidez da sua própria região.

Não há projeção global para o Brasil sem o fortalecimento do Mercosul. O bloco do Cone Sul — agora reforçado com a entrada definitiva da Bolívia ao lado de Argentina, Uruguai e Paraguai — precisa, evidentemente, superar seus engessamentos burocráticos e passar por uma modernização tarifária. Contudo, a integração regional não é uma escolha ideológica, mas o grande movimento geopolítico do nosso tempo.

Na nova ordem multipolar, o poder não se concentrará em uma única capital, mas sim em uma rede de nós essenciais altamente conectados em cadeias de produção, segurança, transporte e consumo. O Brasil, isoladamente, já é um desses nós. Coordenado com o Mercosul, o bloco se transforma em um player global com mais cartas combinadas na mesa, capaz de ditar regras em vez de apenas cumpri-las.

Para as próximas décadas, a atenção especial do Estado brasileiro deve estar no Cone Sul, e isso inclui, obrigatoriamente, a dissuasão estratégica e a soberania tecnológica em questões militares críticas. O fortalecimento da nossa base industrial de defesa — em setores como radares, guerra eletrônica, inteligência informacional, frotas de drones e mísseis de longa distância — é o que garantirá a segurança de nossas fronteiras e recursos. Quanto ao debate sobre o teto dessa capacidade defensiva e o desenvolvimento de tecnologias sensíveis, o futuro exigirá do bloco uma postura de autonomia pragmática, compatível com o tamanho de suas responsabilidades globais. No teatro da nova geopolítica, a voz de quem defende a paz e o desenvolvimento só é ouvida quando respaldada pelo peso real de sua soberania.

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